sexta-feira, outubro 29, 2004

As Rosas


Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a Primavra que eu esperava
a vida multiplicada e brilhante
em que é pleno e perfeito cada instante

Quando à noite desefolho e trinco as rosas
És tu a primavera que eu esperava...

Sophia de Mello Breyner Andresen


Esquina do tempo...

Parada à esquina do tempo
esperei por ti e não voltaste
sentada a um canto da vida
esperei por ti e não chegaste

Então fui sede de esperança
Gaivota poisada em terra
Fui mar que não tem bonança
Da minha paz eu fiz guerra
Fiz da tristeza guarida
Bordei lençois de saudade
Fui passaro de asa ferida
Fui velha sem ter idade
Senti fome de te ver
E mordeu tanto desejo
que à noite mesmo sem querer
a sonhar pedi-te um beijo

E então fiquei parada à esquina do tempo
e não voltaste
E então esperei sentada à esquina da vida
e não chegaste

segunda-feira, outubro 04, 2004

Um homem na Cidade

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.
Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.

Ary dos Santos


sábado, outubro 02, 2004

Foi o mar...

Foi o mar ...
Foi o mar
que partiu os nossos remos.

Dois barcos mortos,
em longes portos
há muito que nos perdemos,

Foi o mar,
Foi o mar ...

Pede ao mar ...
Pede ao mar
que um temporal nos consuma

e a ambos leve,
e feche em breve
no mesmo caixão de espuma.

Foi o mar,
Pede ao mar ...


Letra: Leonel Neves
Música: Luís Goes

sexta-feira, outubro 01, 2004

Estranha forma de vida

Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.

Amália Rodrigues