segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Ausente... [de mim]

Momentos há em nos encontramos fora da nossa cabeça
Em que o que nos rodeia não é mais que uma tela
Da qual não constamos mais, por mais que nos procuremos.
Deixamos de ser impressionados pelas solicitações exteriores
E eis que partimos para um lugar recôndito por um caminho desconhecido.
Sentimo-nos com se estivessemos acima do solo
Entre o ser e o eramos, nada nos faz falta.
Defende-se assim o espírito do sofrimento
Procurando um alívio na ausência, que é consciente
Para os sãos de espírito...



Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.

Sophia de Mello Breyner Andresen