domingo, fevereiro 13, 2005

Onde estas?

Todos os dias ela estava ali, no mesmo sitio à mesma hora.
Com os olhos perdidos num qualquer ponto na linha do horizonte. Terço na mão. uma ou outra vez encontrei-lhe lágrimas no olhar, noutras um sorriso suave e distante nos lábios. Ali ficava horas alheia a tudo, ao mundo. De olhar inquieto, ansioso.
- Velhinha, por quem esperas?
Os seus olhos encontraram os meus por segundos, sorriu. Voltou a olhar aquela linha distante, respirou fundo e numa voz trémula e cansada respondeu-me:
- Espero o amor da minha vida.
- E onde está o amor da tua vida?
Encolheu os ombros e os seus olhos encheram-se de lágrimas.
- Não sabes?
Respirou fundo novamente, retirou do avental negro um lenço branco bordado com as iniciais do seu nome, limpou os olhos, olhou-me novamente e contou-me a sua história:
Conheceu-o quando tinha dezoito anos numa noite de festa na sua aldeia. Encantou-se por aquele olhar negro e vivo, e ele por ela. Timidamente trocaram olhares e sorrisos, nessa noite dançaram um com o outro.
Depois, ele começou a procura-la nos campos onde ela trabalhava arduamente, ficava ao longe a olha-la. Enviava-lhe cartas que ela guarda até hoje, numa caligrafia bonita falava-lhe do amor que lhe tinha e de como a desejava para sua mulher e mãe dos seus filhos.
Contou-me dos encontros na fonte, das promessas e juras trocadas, dos beijos roubados, dos muitos sonhos que partilharam, os mesmos sonhos que lhe alimentavam os dias até hoje...
Um dia numa dessas cartas ele disse-lhe que tinha de partir, ia para o estrangeiro procurar uma vida melhor. Queria poder proporcionar-lhe uma vida digna. Queria tira-la dos campos, daquela vida dura. Perguntou-lhe se o esperava, ao que ela respondeu sim, quando queria ter-lhe dito para que ficasse, que juntos poderiam lutar pela vida, que o importante era te-lo ao seu lado, não consegiu, não teve essa coragem, sabia o quanto ele o desejava e ele partiu.
Essa foi a última carta que trocaram, durante todos estes anos nunca soube nada dele, não sabia onde estava, com quem estava, se bem ou mal, não sabia nada mas mesmo assim continuou à sua espera todos os dias, até hoje.
Contou-me que tinha tido muitos pretendentes, era uma rapariga muito bonita, mas o seu coração só sabia daquele olhar moreno, por quem um dia se tinha apaixonado.
Disse-me com convicção:
- Anda perdido por esse mundo, mas um dia voltará como prometeu!



Margens



Numa mão
O lenço branco
Letras bordadas
De seu nome
Na outra
O Terço
Contas de Amor
Rosário longo

Espera em silêncio

Partiram há muito aqueles olhos
Levaram-lhe o coração
Que se foi
Sem um protesto
Ficaram-lhe os olhos
Para as lágrimas correrem
Ficou-lhe o olhar
No horizonte
Na esperança de um retorno certo
No avental negro
Guarda cartas que o peito
Sabe de cor

Ainda hoje os campos são árduos
Ainda hoje há festa na aldeia
Ainda hoje a fonte a alimenta

E hoje

Hoje o seu coração voltou
Regressou à sua casa
E o seu Amor libertou-se do horizonte
Encheu os campos de flores
Sorriu
Para o lenço
Para o Terço
Para si
E percebeu
Que o Amor volta sempre


PE