terça-feira, março 01, 2005

Da espera...

Dói tanto esperar por ti não sabendo onde estás.
Os segundos atingem dimensão de séculos.
Na tua ausência, existe uma forma negra que contrasta com o cenário circundante,
Para onde quer que eu me volte.
O seu contorno é o contorno da tua admirável figura.
É aí que me nasce a solidão.
No vazio espacial deixado por ti
Que só desaparece quando vens...

Margem



De esperas construímos o amor intenso e súbito

que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.
Em estranhos desencontros nos amamos.
Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.
Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,
a tarde projectava as suas grandes sombras
enquanto as gaivotas disputavam sobre a água
talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.
As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias
E por muito tempo permaneciam assim, unidas,
Machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.
Depois olhávamo-nos nos olhos
No mais profundo silêncio. E, sem palavras,
Partíamos com as mãos docemente amarradas e os corações estoirando uma alegria breve
Quando a noite descia apaixonada
Como o longo beijo da nossas despedida

Joaquim Pessoa


Foto de John Sigler