terça-feira, abril 12, 2005

Da noite...

Quando a noite me encontra longe de ti, deixo-me levar pelo sonho de que estou sentada sob o alpendre dos meus pensamentos, vejo-te desenhado pelos raios de luar nas folhas secas do chão.
Correm por entre as ramagens as imagens que te lembram. Em cada raminho, em cada folha deixas sinais belamente inconfundíveis.
É como se cada árvore florescesse à tua passagem. Adocicando brisas.
Vejo-te a descansar no meu colo e desenho-te um sorriso em cores serenas. Um abraço que te enlaça em traços de ternura perfumada.
O silêncio que nos envolve é como um novelo de coisas por dizer. Que dizemos, em linguagem de gestos e olhares, que é apenas nossa.
A inesgotável procura de ti em cada traço que sonho.

Permaneço imóvel para não te acordar a alma que dorme na minha, até que o Sol venha entreabrir a tua boca num sorriso luminoso...

Margens


Devagar, devagar... A noite dorme
e é preciso acordar sem sobressalto.
Sob um manto de sombra, denso, informe,
o mar adormeceu a sonhar alto.
Devagar, devagar... O rio dorme
sobre um leito de areias e basalto...
Malhada pela neve a serra enorme
parece um tigre a preparar o salto.
E dorme o vale em flor. Dormem as casas.
Nenhum rumor. Nenhum frémito de asas.
Nada perturba a noite bela e calma.
E dormem os rosais, dormem os cravos...
Dormem abelhas sobre o mel dos favos
e dorme, na minha alma, a tua alma.

Fernanda de castro
Foto de lao tzu