sexta-feira, abril 08, 2005

Momentos...


O final de dia caminhou com ela para aquele a que chamava o seu canto. Um espaço rodeado de azuis tranquilos, verdes salpicados de vermelho-papoila, e brisas serenas. Os cheiros a Primavera que a inundaram e o ondular manso das águas trouxeram-lhe por momentos a serenidade desejada.Caminhou pelas margens sonho do seu rio até encontrar a pedra onde sempre se sentava, e que parecia estar ali à sua espera. Fechou os olhos e aspirou forte e lentamente, deixando que o ar ainda puro invadisse cada um dos seus vazios. Sentia-se protegida ali.Lágrimas livres deslizavam pelo rosto, enquanto os seus pensamentos corriam preocupados e inquietos para uma cama de hospital, a cama que acomodava um ser frágil, que amava profundamente, e que lutava para sobreviver.
Correram pelos caminhos da saudade a uns olhos cúmplices que se tinham fechado para a vida.
Levaram-na a percorrer os dias e noites dos seus últimos anos, ás muitas despedidas forçadas, ás inúmeras mudanças que a sua vida tinha sofrido, à tão grande dor que essas e tantas outras vivências lhe tinha trazido, às muitas batalhas que travava todos os dias, e às muitas que sabia que a esperavam, aos sonhos desfeitos. Um tão grande peso abatera-se sobre ela, curvando-lhe o corpo.Não se permitia a partilha-la. Aquela dor era só dela, depois, depois havia quem precisasse da sua força, dos seus sorrisos. Mas hoje, não!
Hoje não conseguia fingi-los, hoje precisava de colo, de que lhe limpassem as lágrimas, e de palavras recheadas de esperança...
O colo encontrou-o na pedra onde se sentara, as palavras que desejava imaginou-as nos sussurros da natureza, os sonhos rebolaram até ela trazidos pelas mãos da brisa que lhe afagava o cabelo, e abraçava o corpo varrido pelos soluços. Ficaram ali juntas na partilha de abraços e afectos. Por quanto tempo não sabia, perdera-se dele.
Foi embora apenas quando sentiu o dia a preparar-se para a noite… E ela, para um novo dia...

É aqui neste lugar rodeada por azuis-mar
Que te sonho mundo,
Invento-te para mim manso e suave
Desenhei-te um olhar claro e de esperança
O mesmo olhar com que velavas os meus sonhos de criança
Aqui tudo esta quieto e tudo foge para além de mim
Não posso acompanhar-te aonde vais,e fico onde estou
Não posso correr para esse abismo onde teimas em viver
Volto a inventar sorrisos em todos os rostos que te habitam
Invento-te uma harmonia sonhada e uma paz desejada
À volta só o silêncio e a solidão
respondem ao meu olhar que não descansa,
ao meu coração sequioso
A quem um dia disseram que tivesse esperança
Aqui neste lugar onde sempre volto...

Foto: Margens do Rio Zezere ( Martinchel)