sábado, junho 25, 2005

Agora que o dia acaba...

Agora que o dia acaba eu podia escrever para ti sobre essas horas
que por mim passaram ou sobre os rumores que me envolveram
e os outros que nascem crescem e me morrem à boca do corpo
e que por uma razão que nem sei explicar
por aqui ficam colados às paredes do meu quarto
dobrados na roupa que acabei de despir
ou ecoando por dentro dos meus olhos.
Há uma espécie de luz que se vai esvaindo e eu
sinto-me invadida por uma serenidade que só me acontece
quando estou assim pensando que à boca do corpo
todas as palavras que quero dizer-te são pouco
muito pouco
e se as dissolver em saliva e as deixar escorregar
no teu corpo
então será mais fácil


Beijos te darei então embrulhados nessas metáforas
aquelas que dizem sussurrando
amo-te amo-te
como se fosses todo o céu que hoje se estreia na minha noite
beijos te darei então
para que em cada um possas dizer-nos com uma linguagem
toda tua toda minha
os nomes chupados por entre a língua
os nomes soprados por entre os dentes
os nomes que sobram por entre os abraços
e os que deslizam do meu para o teu para o meu olhar
depois podemos até cair no silêncio dos amantes e
dizeres de ti dizendo de mim
dizer de mim dizendo de ti
se houver ainda algum amor por fazer



António Ramos Rosa e Maria Teresa Dias Furtado in "Alvor do mundo"