quinta-feira, junho 30, 2005

Outra vida...

A vida vai indo, as coisas reconquistam o sagrado território dos sentidos.
Releio algumas cartas, reaprendo o espaço e o tempo que lhes coube, a estranha sensação de te saber tão longe.
Neste final de tarde, apenas corre uma breve brisa, que suavemente toca as folhas da velha nespereira, as cigarras cantam até que o dia adormeça, até que outros sons as calem.
Passos.
Ah, mas não os teus. Não os teus..
Onde se demoram? Para onde te levam eles?
Passos de alguém que muito provavelmente espera como eu, procura nos sons da tarde outros passos, outros braços que lhe calem a solidão.
Retomo as velhas cartas, as fotografias que guardam ainda o teu sorriso. Memórias. Instantes do que a vida quiz reter.
Aqui estamos nós, braço por cima do meu ombro, sorrisos abertos. Este sorriso aberto é meu? És tu ao meu lado?
Como o tempo passou...
Não, não por ti... E dói saber que ele não passou, nem voltará a passar.
Perco-me sem tempo no contorno do teu rosto, no cabelo revolto, no olhar brilhante, adivinhando, sei, que além dele, existe um outro olhar, uma outra vida, um outro amor. Tão mais imenso, sei-o, sem que precises de me o dizer.
A tua presença, a sofrega alegria da tua presença, a voz, o riso, tudo tão frágil, que temo fechar os olhos e não ter um espaço na memória que os guarde.
Alterei a casa, pintei-a de outra cor, hoje no parapeito da janela, aquela onde gostavas de te debruçar, existe um vaso de onde caem sardinheiras vermelhas. Mas, tudo o que alterei não apagou dela o teu nome, a tua imagem. Continua a ser a tua casa, meu querido irmão, e tal como eu, espera ainda o susto breve dos teus passos desvendando cada um dos seus cantos...