segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Olhos.. [teus]


Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

Ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

Nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

E.E Cummigs

Ausente... [de mim]

Momentos há em nos encontramos fora da nossa cabeça
Em que o que nos rodeia não é mais que uma tela
Da qual não constamos mais, por mais que nos procuremos.
Deixamos de ser impressionados pelas solicitações exteriores
E eis que partimos para um lugar recôndito por um caminho desconhecido.
Sentimo-nos com se estivessemos acima do solo
Entre o ser e o eramos, nada nos faz falta.
Defende-se assim o espírito do sofrimento
Procurando um alívio na ausência, que é consciente
Para os sãos de espírito...



Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, fevereiro 26, 2005

Sigo [te]



Muito para lá da órbita do último planeta
Onde o sol é já só uma referência,
Vai residir a alma deste meu corpo desencarnado,
Do que foi uma apaixonada sem esperança.
Estarei na senda dos espíritos
De todos os seres do Sistema Solar
A caminho do Além Supremo,
Onde o Fim se confunde com o Princípio
E o Destino com a Origem de todas as coisas.
Hás de passar por mim e não me reconhecerás,
Porque o que de mim resta
É aquilo que nunca te deste ao trabalho de tentar encontrar,
Na ânsia que tinhas de cevares essa tua fome de matéria
efémera e perecível.
Olharás para mim sem me veres
Pois não provocarei qualquer imagem no fundo das tuas retinas,
E quando te acenar, apenas sentirás o bater de asas
De uma borboleta fora do alcance dos teus sentidos.
Mesmo assim sigo-te, meu amor
Farei com que dês por mim pois tenho Tempo...

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Poesia

Quando aquilo que temos para dizer é tanto,
E o que temos para mostrar ultrapassa o nosso gesto,
Quando aquilo que queremos dar não cabe nos nossos braços abertos,
Perdemos a capacidade de transmitir as imagens do nosso universo interior pelo simples diálogo directo.
Vale-nos a poesia, senão a parábola.
Valemo-nos da liberdade total, da anarquia domada da redacção quase expontânea.
Ao sabor dos mais desencontrados, mas dos mais belos impulsos interiores.

Margens



Deixaria neste livro
toda a minha alma.
Este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.

Um livro de poesias
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,

e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes incute nos peitos
- entranháveis distâncias.

O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchas
de chorar o que ama.

O poeta é o médium
da Natureza
que explica sua grandeza
por meio de palavras.

O poeta compreende
todo o incompreensível,
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chama.

Sabe que as veredas
são todas impossíveis,
e por isso de noite
vai por elas com calma.

Nos livros de versos,
entre rosas de sangue,
vão passando as tristes
e eternas caravanas

que fizeram ao poeta
quando chora nas tardes,
rodeado e cingido
por seus próprios fantasmas.

Poesia é amargura,
mel celeste que mana
de um favo invisível
que as almas fabricam.

Poesia é o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
corações e chamas.

Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
sem rumo a nossa barca.

Livros doces de versos
são os astros que passam
pelo silêncio mudo
para o reino do Nada,
escrevendo no céu
suas estrofes de prata.

Oh! que penas tão fundas
e nunca remediadas,
as vozes dolorosas
que os poetas cantam!

Deixaria neste livro
toda a minha alma...

Federico García Lorca

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Tu...

És uma pessoa incrível, súbita e simplesmente mágica.
Com um olhar teu o mundo se altera;
com um sorriso teu o céu estremece, e com ele consolas a alma de quem a ti fugazmente recorre.
São dois olhares que se entrelaçam, olhos que falam entre eles, sobram as palavras, mas o teu sorriso ficará sempre adormecido na minha memória, até que tu logres com a tua presença e simplicidade despertar-me deste belo sonho, o qual, segundo a segundo, se converte numa eternidade em que ando perdida num labirinto, esperando a qualquer momento encontrar esse brilho dos teus olhos que para mim significa o despertar para a vida.
Persisto ainda em procurar as palavras para poder definir-te, mas tu simplesmente és e serás sempre muito mais...

Que os teus dias sejam repletos de realizações dos teus desejos e as tuas noites de sonhos. E até que nos voltemos a ver que Deus te guarde nas Suas mãos.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Promessa



És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante

Sophia de Mello Breyner Andresen


terça-feira, fevereiro 22, 2005

Porque...




Porque cego quando te não vejo?
Porque ensurdeço quando te não oiço?
Porque morro quando não respiro o teu hálito?

- Porque és a luz, o verbo e o alento de que careço.

Viveremos em Shangri-La, o vale-paraíso,
Sobre as folhas de palmeira, nas quais deitaremos os sentidos,
E lavaremos as mágoas com o orvalho da madrugada.

Onde Renasceremos um no outro...

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Ensina-me...

Ensina-me a amar-te!
Diz-me que te não sufoque na ânsia de querer saber de ti
Obriga-me a respeitar o teu silêncio quando não queres falar.
Perdoa a minha impaciência irresponsável que se abate
Sobre essa barreira do não, firme e meigo,
Tecido de certezas entrançadas de dúvidas,
Numa trama de esperanças.
Vejo-as quando desvias os olhos às minhas perguntas mudas
Ouço-as num soluço que deixas escapar,
Sinto-as no afastar do teu corpo à minha proximidade.
Não te quero dilacerado por dentro
É uma aprendizagem difícil e longa.
Quisera ser perfeita e viver feliz
Só das palavras que escreves.
Aqui me tens despojada mas sempre esperançosa
de que um dia será possível.
Senta-te aqui, a meu lado, e escreve comigo, sim?
Ensina-me, por favor!

domingo, fevereiro 20, 2005

Para ti Eme, menina, mulher, amiga, irmã.



Fui em demanda da tua prenda.
Vesti-me da cor do sol e pintei os lábios com pétalas de rosa.
Desbravei caminhos com aroma a alfazema e alecrim.
Teria de ser uma caminhada feliz para encontrar a tua prenda.

Vi o teu olhar meigo e o teu sorriso de menina no espelho do meu carro.
Sorri para ti e acelerei.
Sabia que a tua prenda seria igual a ti.

doce em movimento que nos acolhe
frágil em delírios de azul
vibrante em surpresas que me acordam
suave em ondas de espuma
linda em alma que toca a minha
anjo que povoa os dias de sempre
coração vermelho cheio de música
alma pura cheia de amor.

Fui em demanda da tua prenda.
Corri, sorri, gritei o teu nome ao vento.
Cheguei contigo à magia do mar.
Senti que chegara ao destino e ao desejo de amar.
Dou-te o meu momento feliz de hoje.
É a tua prenda.

Parabéns pelo teu aniversário
Parabéns por seres tu
Gosto muito de ti, Eme.

Lolita


Muito Obrigada minha querida!!
Trouxes-te embrulhado em doces e coloridas palavras, o sol, o mar, o amor, os sorrisos, os afectos...
Estes são os gestos que nos ficam para sempre gravados na alma...
E quando à minha volta tudo for frio, voltarei a estas tuas palavras que tão profundamente me tocaram, e nelas me envolverei até que o seu calor me aqueça e devolva todos os sorrisos, todas as cores... Poderia dizer-te tanto, mas talvez pela emoção as palavras faltam, e são todas insuficientes para te dizer o que senti ao ler as tuas, por isso digo-te apenas que te adoro, e que amo ter-te por perto...

Que a tua vida seja recheada de muitos momentos felizes e que os possas sempre partilhar, e ainda que faças sempre parte da minha vida

Obrigada, por existires!



Tu sabes descrever-me os humores.
Utilizas palavras de mil cores,
Em versos de um amor sem limites
Que cura em mim as feridas de outros pretéritos.
Em ti encontrei um porto de abrigo,
Abraços estendidos sem perguntas,
Carinho sem normas,

Amizade sem julgamento…
Contigo é mais fácil esquecer as tristes verdades.
Porque tu ensinas que o amor não é obrigação,
Que a vida faz mais sentido quando se ama...
Tu sabes quedar-me as duvidas,
Dissipar-me os males,
Aconchegar-me quando mais preciso…
E quando tu não estás,
Voltam as vontades nos silêncios
E a vida parece mais vazia...

Sinto-me incompleta,
Perdida.
Tu me apareceste em acaso,
Num acaso que só fez sentido...
E por ti a minha vida tem mais valor.
Hoje, minha querida,
Digo-te de coração nas mãos,
Braços estendidos,

Nunca me abandones...
A vida ou a imortalidade não fazem sentido sem ti...


Vera Cymbron



Minha querida,
Hoje uma menina de dois anos disse-me, "M. eu amo-te. Eu amo o mundo todo". Se tu soubesses o quanto me tocou ouvir, da sua vozinha emocionada, estas palavras. É tão bom ouvi-lo, é tão bom sentir que despertamos um sentimento tão nobre quanto o é o amor. Encheu-me a alma e o coração. Justificou o dia, a existência... Esta é, para mim, a chave da vida, o amor. E, não me sei sem o sentir, não me sei sem estar apaixonada pela vida, pelos outros. Ele, amor, é sem dúvida a minha base. É por ele que me dou, é por ele que vivo. Não sou uma pessoa perfeita minha amiga, e por isso também não sei se mereço as tuas palavras. No entanto, posso dizer-te que te amo, e que estarei ao teu lado enquanto quizeres que aí permaneça. E no dia em que não mais o desejares, saberei ir embora, mas, ficarei perto o suficiente para te ir sabendo..
Obrigada por esta tua prenda, Amei!... Obrigada por estares aí, aqui..

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Se tu soubesses...



No momento em que os raios do sol deslizam nos céus,
E o brilho da lua acena o último adeus,
Os meus sonhos terminam com o teu nome nos meus lábios
E começam, sem interrupção, os pensamentos em ti .
Lembrar-me-ei da última vez que nos encontramos,
Mergulhando na memória desse tão especial momento,
Detenho-me no cenário em que te vi sorrir
Tentando fazer durar tal imagem nem seja só por um segundo
Então, por alguma razão, o meu coração desalvora,
A respiração altera-se e os pensamentos rodopiam!
Tento ignorar tudo isto que cresce cada vez mais forte,
A chegar a um limite que ultrapassa a minha
capacidade de domínio.
Vou deitar-me na almofada dos meus sonhos
Onde ouvirei frases com o teu nome.
Delas retirarei palavras e farei uma poesia,
Esperando que de algum modo te conduza a mim.
Aqui estão os sentimentos que escondo
Explodindo de um amor tão grande como a maré!

Ah, se tu soubesses!

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Silêncio...



Quando percebeu, ele já lhe tinha invadido o corpo e a alma.
Como tinha sido possivel?
A pergunta oscilava por dentro do seu ser
Os seus cheiros entravam-lhe no corpo, e ela já não o conseguia evitar. Não conseguia.
Rasgava-se em ternura. Desejava o encontro. As mãos trémulas e irrequietas tinham fome da partilha de palavras sussurradas. Os olhos àvidos dos seus olhos, a implorarem a comunhão do sentir.
E o medo, o medo de que os reflexos de dávida que encontrava no seu olhar, não passassem de uma ilusão, perfuravam-lhe a pele.
O mesmo medo calou-lhe a voz, sossegou-lhe os passos, imobilizou-a
Perdeu-se no silêncio..

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

...




Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe. O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.

Casimiro de Brito

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Poema...



Sentei-me na varanda dos teus olhos
E fiz um poema ao branco das flores
Foi o poema mais belo que fiz
Não tinha expressões roubadas aos dicionários do dificil
Não necessitou dos pássaros de Llorca
Não falou das areias do deserto
Nem do fogo da noite que arde
Ou de voos envoltos em branco de luar
Tinha a tranquilidade dos eremitas
E o silêncio da tarde onde a tarde se cala
Tinha o fresco da madrugada e o vermelho do sol
Do dia que nasce a esperança que ri..
O poema mais bonito que já fiz
Dizia apenas
Gosto de ti...

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

...

Deito-me contigo, contigo acordo e contudo não estás aqui;
Encho os braços com pensamentos de ti e fecho-os no ar...
Os teus olhos fitam os meus quando estás fora de vista;
Meus lábios tocam constantemente os teus de manhã, à tarde e à noite.
Penso e falo de outras coisas para ter paz de espírito,
Mas a minha memória agarra-se a ti sedenta das tuas palavras e da tua imagem.
Escondo-o dos olhos do mundo, penso e falo em contrário,
Mas manso vem o vento do céu que me sopra lendas tuas.
O vento da noite segreda-me aos ouvidos,
Suspirando, sem pressa, notícias tuas.
Despertando ainda mais esta saudade que me veste a alma…

Margem



Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta. Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima - eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios,
sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagares
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
que te procuram.


Herberto Helder

Palavras tuas...

Amo quando as palavras morrem no sorriso dos teus lábios, para renascer no teu mais secreto e cúmplice olhar

Sinto em cada uma um beijo de infinta ternura..

domingo, fevereiro 13, 2005

...



Gogh, Vincent van

Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca
Não poderei escrever o teu nome com palavras
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto
Quero a tua boca aberta em minha boca
E amo-te como se nunca te tivesse amado
Porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos
trago as mãos distantes do teu peito

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti. Porque te amo.

Joaquim Pessoa

Onde estas?

Todos os dias ela estava ali, no mesmo sitio à mesma hora.
Com os olhos perdidos num qualquer ponto na linha do horizonte. Terço na mão. uma ou outra vez encontrei-lhe lágrimas no olhar, noutras um sorriso suave e distante nos lábios. Ali ficava horas alheia a tudo, ao mundo. De olhar inquieto, ansioso.
- Velhinha, por quem esperas?
Os seus olhos encontraram os meus por segundos, sorriu. Voltou a olhar aquela linha distante, respirou fundo e numa voz trémula e cansada respondeu-me:
- Espero o amor da minha vida.
- E onde está o amor da tua vida?
Encolheu os ombros e os seus olhos encheram-se de lágrimas.
- Não sabes?
Respirou fundo novamente, retirou do avental negro um lenço branco bordado com as iniciais do seu nome, limpou os olhos, olhou-me novamente e contou-me a sua história:
Conheceu-o quando tinha dezoito anos numa noite de festa na sua aldeia. Encantou-se por aquele olhar negro e vivo, e ele por ela. Timidamente trocaram olhares e sorrisos, nessa noite dançaram um com o outro.
Depois, ele começou a procura-la nos campos onde ela trabalhava arduamente, ficava ao longe a olha-la. Enviava-lhe cartas que ela guarda até hoje, numa caligrafia bonita falava-lhe do amor que lhe tinha e de como a desejava para sua mulher e mãe dos seus filhos.
Contou-me dos encontros na fonte, das promessas e juras trocadas, dos beijos roubados, dos muitos sonhos que partilharam, os mesmos sonhos que lhe alimentavam os dias até hoje...
Um dia numa dessas cartas ele disse-lhe que tinha de partir, ia para o estrangeiro procurar uma vida melhor. Queria poder proporcionar-lhe uma vida digna. Queria tira-la dos campos, daquela vida dura. Perguntou-lhe se o esperava, ao que ela respondeu sim, quando queria ter-lhe dito para que ficasse, que juntos poderiam lutar pela vida, que o importante era te-lo ao seu lado, não consegiu, não teve essa coragem, sabia o quanto ele o desejava e ele partiu.
Essa foi a última carta que trocaram, durante todos estes anos nunca soube nada dele, não sabia onde estava, com quem estava, se bem ou mal, não sabia nada mas mesmo assim continuou à sua espera todos os dias, até hoje.
Contou-me que tinha tido muitos pretendentes, era uma rapariga muito bonita, mas o seu coração só sabia daquele olhar moreno, por quem um dia se tinha apaixonado.
Disse-me com convicção:
- Anda perdido por esse mundo, mas um dia voltará como prometeu!



Margens



Numa mão
O lenço branco
Letras bordadas
De seu nome
Na outra
O Terço
Contas de Amor
Rosário longo

Espera em silêncio

Partiram há muito aqueles olhos
Levaram-lhe o coração
Que se foi
Sem um protesto
Ficaram-lhe os olhos
Para as lágrimas correrem
Ficou-lhe o olhar
No horizonte
Na esperança de um retorno certo
No avental negro
Guarda cartas que o peito
Sabe de cor

Ainda hoje os campos são árduos
Ainda hoje há festa na aldeia
Ainda hoje a fonte a alimenta

E hoje

Hoje o seu coração voltou
Regressou à sua casa
E o seu Amor libertou-se do horizonte
Encheu os campos de flores
Sorriu
Para o lenço
Para o Terço
Para si
E percebeu
Que o Amor volta sempre


PE

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Chuva .. [de ti]



A chuva vivificante que me trazem as tuas suaves palavras quebra sempre alguma aridez desta miseranda existência longe de ti, meu amor.
Quando oiço a tua voz sinto-me como terra a ser fertilizada pelo aluvião nutritivo.
Dou pelos mais ternos sentimentos a crescerem , imparáveis, tentando chegar a ti, a galgarem esta distância que teima em não encurtar.
Bebo a tua verve, sôfrega, pois esta secura que me invade a boca é sede de ti, da tua alma e corpo.
Reservo num cálice feito de ternura e ansiedade o que me vertes em amor.
Dele beberemos os dois no próximo encontro...

terror de te amar...#02



sensíveis os campos dos amores emergentes
sophia inundou o olhar do tejo rumou a norte
na tarde ouvimos o silêncio tristemente emudecido
cavalo à solta por soltar é este terror de te amar sophia
bebe mais um copo ary
na brancura me revejo e me desejo

Carlos

Só tu, meu irmão... Obrigada!

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Fragil

Aperta-se meu peito por te ver,
Doe-me o coração de te saber…
Afago meu peito com mãos de bandido,
No desejo de lhe tomar o coração,
Em meu desespero,
Só para dá-lo a ti…
Sei dos teus silêncios,
Tomam-me os punhos cerrados,
Numa luta que perco a cada lágrima tua…
Sei das palavras que nos vão morrer,
Sempre no sufoco das gargantas
Cansadas da dor lancinante
Do amor frágil…
Aperta-se meu coração,
Por te saber essa chama,
Que te queima e desassossega,
Que te consome e inquieta…
Não me chegam as palavras
Não as ouves!
Sentes essa dor surda,
Que te devora os sentidos
E esquece os nomes de quem te ama.
Sei do teu olhar perdido,
Da tua voz embargada,
Do teu desespero de nada saber…
Do teu amor tão pouco!
Estendo-te os braços em desatino,
Abraço-te em dor com carinho...
Minha querida,
Nada mais tenho para te dizer.
Estou aqui, eu sei!

Pele



Obrigada, minha irmã...

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

...



Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Reza, Maria



Suam no trabalho as curvadas bestas
e não são bestas
são homens, Maria!

Corre-se a pontapés os cães na fome dos ossos
e não são cães
são seres humanos, Maria!

Feras matam velhos, mulheres e crianças
e não são feras, são homens
e os velhos, as mulheres e as crianças
são os nossos pais
nossas irmãs e nossos filhos, Maria!

Crias morrem à míngua de pão
vermes na rua estendem a mão a caridade
e nem crias nem vermes são
mas aleijados meninos sem casa, Maria!

Do ódio e da guerra dos homens
das mães e das filhas violadas
das crianças mortas de anemia
e de todos os que apodrecem nos calabouços
cresce no mundo o girassol da esperança

Ah! Maria
pôe as mãos e reza.
Pelos homens todos
e negros de toda a parte
pôe as mãos
e reza, Maria!

José Craveirinha


Foto de Nina

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Lá em baixo

Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão noite
há quem tema a madrugada
e no escuro se afoite
há quem durma tão cansado
nem um beijo os estremece
de manhã acordarão
para o que não lhes apetece
e há quem imite os lobos
embora imitando gente
há quem lute e ao lutar
veja o mundo a andar para a frente

E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

Lá em baixo ainda anda toda a gente
apesar de ser tão tarde
há quem cresça no escuro
e do dia se resguarde
há quem corra sem ter braços
paraos braços que os aceitem
e seus braços juntos crescem
e entrelaçados se deitam
e a manhã traz outros braços
também juntos de outra forma
de quem luta e ao lutar
a si mesmo se transforma

E tu, Maria…
Lá em baixo ainda há quem passe
e um sonho que anda à solta
vem bater à minha porta
diz a senha da revolta
vou plantá-lo e pô-lo ao sol
até que se recomponha
é um sonho que acordado

És tu Maria, eu sei, já sei, és tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

Sergio Godinho




...



Este Inverno não choveu como o tempo manda
E na Primavera as andorinhas tardaram.
O manto verde dos campos resistiu à pintura divina
E mesmo o Sol se manteve escondido mais do que aconselha o bom senso.
A alegre energia desta época não me inundou.
A vontade de dançar nas primeiras festas não chegou,
E os primeiros cantares das aves serôdias
Apanharam-me sem vontade de me erguer.
Há tantos meses que te não sinto
Que até o Tempo parece definhar com saudades...

(...)

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Poema para habitar

A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.

Que lhe limpem os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.

Até que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.

Albano Martins

domingo, fevereiro 06, 2005

...


Gustav Klimt

... Depois, depois chegou a Primavera, e ela renasceu...
As flores moldaram-lhe delicadamente o rosto. O corpo fez-se em folhas, ramos, e em pequeninas flores brancas
Guarda dentro de sí, as cores, os perfumes, a simplicidade e alegria do espírito das flores. Tudo tinha mudado à sua volta, ou talvez não, talvez fosse o seu olhar, que não era agora apenas o seu olhar, nele habitava outro.
Um outro olhar que lhe ditava os passos, o sentir, os sorrisos, as cores..
Um outro olhar que lhe trazia a primavera...

Venezia....



Apetecia-me....

sábado, fevereiro 05, 2005

Finito....



Talvez me seja muito mais dificil acabar com este vicio, nesta altura marcada pela mudança interior e exterior... Sei que o corpo, a alma, a dor, me irão implorar o toque, os gestos, os sabores, os fumos.. Sei que irei vacilar, sei que me irei mentir,

Sei que este será o último...

Vejo-te



Vejo-te a passear pelos sítios onde nunca passeamos,
Vejo-te no rosto dos que se cruzam comigo, mas nenhum deles és tu.
Vejo-te no espelho quando me olho
Vejo-te dentro dos meus olhos que parecem teus,
Vejo-te no desenho do meu sorriso
Vejo-te nas palavras dos livros que leio nas noites vazias de ti,
palavras escritas de e para a ausência
Vejo-te na noite dos dias e nos dias das noites
Vejo-te no futuro que não vivemos
Vejo-te em tudo, porque tudo está tocado por ti
Vejo-te em tudo e tu não estás...


sexta-feira, fevereiro 04, 2005

...

Esta vontade de te saber..
de encontrar os teus olhos,
o teu abraço
de sentir a tua voz na minha pele

Esta vontade de parar o meu pensamento
que corre para ti
este ficar partindo
este partir ficando...



Esta tão grande saudade...

.....

Há qualquer coisa de sonho
há qualquer coisa de fado
no improvavel acaso de estar
ao teu lado
Meu companheiro profundo
do outro lado do mundo
tantos abraços te dei
sem te ter encontrado



foste viajem de barco
foste mil portos de abrigo
eu já nem sei quanto andei
para vires ter comigo
e cada vez que me perco
sinto que ficas mais perto
Como se o mar fosse a prova
que nunca consigo
dizem ser proprio da noite
que os astros se acendem
sei que pressinto na noite
a alegria chamando
Vem.. Vem...

AD

Creio

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamante,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

Natália Correia

Amélia dos olhos doces

Amélia dos olhos doces,
Quem é que te trouxe grávida de esperança?
Um gosto de flor na boca,
Na pele e na roupa, perfumes de França

Cabelos cor-de-viúva,
Cabelos de chuva, sapatos de tiras,
E pois, quantas vezes,
Não queres e não amas
Os homens que dormem,
Os homens que dormem contigo na cama

Amélia dos olhos doces,
Quem dera que fosses apenas mulher
Amélia dos olhos doces,
Se ao menos tivesses direito a viver

Amélia gaivota, amante, poeta,
Rosa de café
Amélia gaiata, do bairro da lata,
Do Cais do Sodré

Tens um nome de navio,
Teu corpo é um rio onde a sede corre
Olhos doces, quem diria,
Que o amor nascia onde Amélia morre

Carlos Mendes