quarta-feira, março 30, 2005

Do amor...

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão devagar sobre o peito da terra e sente respirar no seu seio os nomes das coisas que ali estão a crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro e as campainhas azuis; a menta perfumada para as infusões do verão e a teia de raízes de um pequeno loureiro que se organiza como uma rede de veias na confusão de um corpo. A vida nunca foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo. Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor da tempestade que faz ruir os muros: explode no teu coração um amor-perfeito, será doce o seu pólen na corola de um beijo, não tenhas medo, hão-de pedir-to quando chegar a primavera.


O meu amor não cabe num poema ― há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
os quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto ―
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura a mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer ― é um formigueiro
que acode aos lábios com a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente os segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome ― é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. nenhum poema
podia ser o chão a sua casa.

Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, março 28, 2005

Pele da minha Pele...


Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele
David Mourão-Ferreira


Surgiste quando já nada em mim te esperava,
Aconteceu o [re]encontro
Os meus olhos conheceram-se nos teus
Souberam-se no reflexo do teu agora
A minha pele vibrou na mesma frequencia
Que te ondulava o corpo
A entrega espalmada no percurso nervoso das minhas mãos
Ansiosas pelo contacto da tua pele
Convidei-te a entrar na casa onde habita a minha alma
Deixei que me partissem dos dedos
Gestos envoltos em palavras de ternura
Mas, as tuas mãos, a tua pele perceberam nada
Do ondular de amor no meu corpo
Recolhi as mãos,
Apaguei os sorrisos das palavras que te acariciavam
Em ternura
Calei a voz da procura...

Em mim ainda a tua pele
por dentro da minha pele..


domingo, março 27, 2005

da Saudade #02


Este Inverno não choveu como o tempo manda
E na Primavera as andorinhas tardaram.
O manto verde dos campos resistiu à pintura divina
E mesmo o Sol matenve-se escondido mais do que aconselha o bom senso.
A alegre energia desta época não me inundou.
A vontade de dançar nas primeiras festas não chegou,
E os primeiros cantares das aves serôdias
Apanharam-me sem vontade de me erguer.
Há tantos meses que te não sinto
Que até o Tempo parece definhar com saudades...
Volta, meu amor, para que a invernia não nos invada no ano inteiro.

Foto de Bart van Oijen

sábado, março 26, 2005

Instantes Perfeitos....

É num Instante Perfeito, em tons, cheiros e sons de Africa, que Vos desejo uma Santa e Feliz Páscoa...

Partiste...

Partiste,
em noite iluminada por lua
Prenhe de sonhos
Absoluta,
A mesma luz e a mesma lua
que momentos antes desenhara versos
em branco no teu olhar
Promessas cheias de futuros
Mãos atadas
Caminhos longos
Partiste,
Fechando para sempre as portas
Que o teu olhar abria,
Levaste contigo os sonhos
Os sorrisos e os versos cheios de
Futuros por cumprir
Partiste,
E a lua vestiu-se de luto,
O céu chorou cúmplice na dor
que me recortou a alma em fragmentos de não existir ...



Digo-te Adeus,
E dói-me o sorriso da partida
Este partir ficar na saudade
Porque foi tão pouco o tempo que tivemos
Mas tão forte cá dentro
O que sentimos
Que muito anos, meu irmão
Nós vivemos no tempo
de nos darmos num só dia…

foto de Adam Moore

sexta-feira, março 25, 2005

Liberdade...



A minha fome vem de dentro
Morde no desejo de soltar as amarras que
Me prendem os passos da alma e do corpo
A minha sede aflora a pele
Queimando-a no anseio da liberdade
Consumada ..


quinta-feira, março 24, 2005

...

Na chama mais recente aflorada
o regresso acontece indecifrado

O fogo inicia o seu mistério

Estendes-te manhã na tua asa
A procurá-la desço a madrugada


a flor do sal. aberta nos teus
lábios. signo da signa secreta. em que
me perco. já tarde
em ouro exposta ao sol. ao vento.
de crinas onduladas. onde tudo todos
somos. outras sementes que fomos
oblíquos os teus olhos. gotas do
deserto. de que me nascem asas. que
siam. entre litorais redondos
o teu segredo é o teu medo. o meu
medo é o teu segredo. e pelas pontas
outros nós puxamos segredos e medos
e há pés que passam a nosso lado.
feitos de mar de terra e alcatrão.
outras histórias. outros fados. outros
segredos. outros medos. outras asas.
outros olhos. outras sementes. outros
ventos. outros lábios
vivemos em segredo. amor é isso.
uma fuga sem onde. sem como. sem
porquê. sem quando. fitas soltas d'água
mas nós. assim o julgamos.
de saber sentido na boca onde se
escapa. como aves. sempre como aves.
de olhar vago. indefeso. inseguro.
pesado
e voamos. virando folhas de espaço
selado. onde estamos. ou não estamos.
à mercê das aves. de outras aves

Joaquim Matos
Foto de Portrait ´s

quarta-feira, março 23, 2005

Da Chuva...


A chuva vivificante que me trazem as tuas suaves palavras quebra sempre alguma aridez desta miseranda existência longe de ti, meu amor.
Quando oiço a tua voz sinto-me como terra a ser fertilizada pelo aluvião nutritivo.
Dou pelos mais ternos sentimentos a crescerem , imparáveis, tentando chegar a ti, a galgarem esta distância que teima em não encurtar.
Bebo a tua verve, sôfrega, pois esta secura que me invade a boca é sede de ti, da tua alma e corpo.
Reservo num cálice feito de ternura e ansiedade o que me vertes em amor.
Dele beberemos os dois no próximo encontro.


Foto de Ju and Michael

terça-feira, março 22, 2005

Caminho[s]


Irei contigo para o pó dos caminhos
Para o calor das tardes ou para o frio da noite
Caminharei descalça sob as areias escaldantes
Ou sob as geadas nascidas de madrugadas inquietas
Farei da terra o berço de sementes esperadas
Desvendarei os segredos do silêncio
Calarei a voz com a tua voz
Esvaziar-te-ei de todas as lágrimas
Despir-te-ei para que descubras que andas nu de tudo
Menos de sol…
Adormecerei as tuas insónias escondidas
Velarei o teu sono
Apagarei com os meus beijos a dor que te lavra no peito
Farei nascer o céu mais azul
O céu que torna possivel todas as decobertas,
Todos os encontros
E que desenha no mapa de nós, caminhos tranquilos e
Percursos paralelos…


Foto de Christophe Kerneis

segunda-feira, março 21, 2005

Hoje...

.. Celebra-se o dia mundial da Poesia, e não podia esquecer Florbela Espanca já que foi através dela que descobri e aprendi a amar a Poesia. Ser Poeta é dos sonetos que, e na minha opinião, melhor definem aqueles que se dão totalmente às palavras...

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendos
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Hoje também, Dia Internacional da Eliminação da Discriminação Racial.


Aquele Homem

Aquele homem que passou na rua
Com o olhar perdido
Num sonho sem forma
É meu irmão.
Aquele homem que arrasta os pés
Com os braços caídos
O fato roto e os pés doridos
É meu irmão.
Aquele homem que foi novo
E tinha a felicidade no olhar
Que nunca me viu
Que nunca me falou
Que não sabe se sou viva
Ou se já morri
E que sonha como eu
Um sonho escondido no olhar
E que tem como eu
O vazio em cada mão
Aquele homem
É meu irmão.

Margens

E ainda, Dia Mundial da Floresta.



Árvore

Não sei que árvore és.
Não sei se as tuas folhas desistem de viver, no Outono.
Se brotam flores esfuziantes nos teus ramos algures na Primavera.
Se a tua casca é daquelas que apetece abraçar.
Desconheço a música que o vento do Inverno toca nos teus vazios
E as formas da sombra da tua copa, no Verão.
Tens dois ramos bem abertos que me prometem um abraço de saudade do meu longínquo amor
Arvore de vermelhos-muitos,
lembras-me alguém...

E mais ainda, o dia Mundial do Sono. ( Há de facto dias importantes, este comemoro-o todos os dias...)

sábado, março 19, 2005

De Azul...



Vestiste-te de Céu azul
Com o sol nas mãos
Eu era passaro
Instante sombra na copa das árvores
Agitadas pelo vento
Voo rasando as margens do teu corpo
Bebendo dos teus lábios rubros
As estrelas de dádiva que os teus olhos deslizam
E és sorrisos e uvas
E figos comidos ao entardecer
Nas tardes verdes banhadas pelo
Sol que queima a memória
Da tua pele
E o silêncio da tarde acordou
Em nuvens de suspiros
Num arco-iris de àgua pura
Plena de cores que se fundem
Dentro de nós

sexta-feira, março 18, 2005

Da Entrega...


Passo-te as mãos no rosto num gesto de ternura intemporal
Os dedos àvidos de trajectos,
Os teus olhos de perguntar encontram os meus
Desenhando-lhes lentos compassos de espera,
Demoradamente lentos,
Devolvo o medo inquieto de que me saibas
Como se fosse possível impedi-los de te beijar
Com a furia de quem ama,
O teu cheiro a entrar no meu corpo.
A ternura a espraiar-se.
Os meus dedos a enrolarem-se nas palavras
Dolorosas do teu silêncio,
Os meus lábios no desejo da comunhão do sentir,
Beijam-te baixinho,
Para que oiças a ternura limpida
Do meu aceitar.
Solto-me de mim, para livre
Me depositar nas tua alma e no
Teu corpo.

No meu olhar a entrega da ternura
A certeza do amanhã….



Foto de Rondal Partrigde


quarta-feira, março 16, 2005

Para além do tempo...


Despe-te de tudo o que te poderá embotar os sentidos
Pois quero que chegue às mais abissais fossas do teu ser
Todo o amor de todos os amantes que por estas terras passaram!
São para ti todas as palavras que foram ditas
Todos os poemas que foram cantados,
Todas as juras formuladas.
Quero que seques todas as lágrimas derramadas
E conformes no semblante todos os sorrisos que iluminaram tantos rostos radiantes.
Recebe amor, todos os beijos e todos os abraços que alguma vez se perderam.
Quando a terra se escancarar, quando o Fim for o Princípio,
Estaremos juntos no limite temporal do universo...

terça-feira, março 15, 2005

Amanhecer... [ em ti]


Se souberes que o teu riso
Faz nascer campos de flores
No meu peito,
Se souberes que o meu nome
Nos teus lábios
É o cântico que desperta
O que eu sou,
Se souberes que quando te abraço
o meu corpo
È um porto que te abriga
Abrigando-se em ti,
Se souberes que a distância
Une as margens
Na onda de desejo do reencontro,
Se souberes que o teu olhar
É onde repousa o meu
Onde em silêncio
As nossas Almas se unem
Na serenidade da luz
Que as alimenta,
Se souberes do sobressalto
Dos dias mais tristes
Em que a ternura de um beijo quente
Afasta as tempestades,
Sabemos então, amor
Que o dia anoitece sem prometer
um novo despertar
Amanhece tão só do desejo que temos
De renascer um no outro...


foto de Liang-Wu Cai

segunda-feira, março 14, 2005

Mãe...



Adoro esse mapa que se vem gravando no teu corpo,
Essa textura de uma vida que soubeste partilhar,
Esse testemunho de que viveste para o tempo,
De um tempo que por ti passou e marcou,
No qual foste espectadora e intérprete.
Quisera reduzir-me ao ínfimo ser
Para poder percorrer os montes e vales no teu rosto
E ouvir os ecos das histórias que viveste.
Quero aprender contigo o saber que és...


Foto de Elaine Lyness

sábado, março 12, 2005

Dos teus olhos...


A doçura do teu olhar é só comparável à do mel que te escorre dos lábios quando pronuncias o meu nome..

Mas já lhes li ausência. E assaltou-me um medo terrível de um dia não poder perder-me neles.
São os teus olhos que indicam o caminho e iluminam os meus passos
São eles que me beijam e aquecem num abraço de infina ternura quando tudo à volta é gelo.
É nos teus olhos que descanso os meus quando o cansaço vence
É o teu mais intímo olhar que me desperta os sentidos, quando silenciosamente me convida a navegar pelas margens do teu corpo
São os teus olhos que decifram os inefáveis segredos que me revestem a alma
É neles que escrevo as minhas mais secretas palavras
Que são tuas, apenas tuas

Se tu soubesses, o quanto preciso da luz que me inunda sempre que o meu olhar amanhece no teu....

sexta-feira, março 11, 2005

Silêncio(s)


Traços de TCA

Cruel...
É o indiferente vazio do silêncio que me rodeia
E que de injustos ruidosos pensamentos me inunda.

Ouvindo o silêncio das coisas passadas,
Vislumbro imagens que os outros não vêem
Leio palavras que os outros não lêem
Imagens que dançam no meu pensamento,
e que brincam com o meu sorriso
Palavras que despertam a saudade,
e que enriquecem a minha existência
Palavras que choram a tua ausência,
e que te imploram para que venhas,
abraçar o meu silêncio...



quinta-feira, março 10, 2005

Passou hoje a Sombra Negra à minha beira.
Deu três voltas em fúria e arrebatou para sempre
Uma vida e um pouco do meu passado.
Sinto conforto em tantas e tantas memórias
Ligadas a este alguém que hoje se libertou
De um invólucro carnal banhado pelo sofrimento.
Vivia numa casa grande que faz parte de uma minha antiga e feliz realidade.
Apesar dos medos de criança que aí passei era um sítio que me agasalhava.
Descansa em paz, minha Tia.



Adormeci com a tua voz quente e doce, percorrendo os caminhos daqueles que se deram para que nós duas existíssemos…
Alguns deles conheci-os apenas através de ti, aprendi a amá-los através do amor imenso que lhes tinhas.
Eram deliciosos esses momentos em que ficávamos envolvidas em tempos e espaços que não sendo nossos fazem parte daquilo que somos.
Ontem partiste nessa viagem que te levará ao reencontro com cada um deles, e pensá-lo alivia a dor imensa que me veste a alma.
Em mim fica não só a saudade, mas também a profunda admiração pela grande Mulher que soubeste ser...
Obrigada pela tua partilha e dedicação a cada um de nós!

Até um dia…

quarta-feira, março 09, 2005

Palco da Vida...

Novo palco, novos adereços, novos actores.
Luzes suaves, um foco vermelho ao centro.
Entra em cena uma mulher. Cabelo negro e corpo felino, levemente ondulante. Traz nos olhos as sombras que ficaram do choro trágico das noites brancas de sonhos. Fala de pé, olha em frente, para lá dos espectadores. Inicia o monólogo

- O meu nome é Maria. Trago a dor comigo. Alojei-a na minha casa, deitei-a na minha cama, vesti-a de festa. Alimentei-a como um gato de estimação. Acariciei o seu pelo macio. A minha dor não tem cor. A minha dor é tão banal como o eléctrico que apanhei para aqui chegar. A minha dor não tem nome. A minha dor é apenas o silêncio de não voltar a ouvir a voz de sorrisos que sussurrava, amo-te maria. A minha dor fica na ausência de não saber quem ouve agora o nome amo-te maria. A minha dor é feita de solidão, de raiva e de paz. É só minha. A minha dor tem o nome que já esqueci. A minha estória começa e acaba onde o meu nome maria se apaga com uma borracha macia.

As luzes apagam-se devagar. O foco vermelho desvanece. Não há aplausos, não há público, é apenas um ensaio.

LolaViola



Sim, tenho esperança que os sorrisos sucedam às lágrimas
Que a bonança substitua o mau tempo
Que as minhas forças vençam a fraqueza do meu desalento.
Que a tua ausência sucumba às mãos da tua presença e
Que todas as tuas zangas sejam comigo,
Que seja o depósito dos teus desabafos,
Que me torne a esponja das tuas lágrimas.
Mas também...
A plateia dos teus sucessos,
A gémea da tua alegria
O coro das tuas gargalhadas,
A companhia dos teus passos e
O outro carril desta linha que desejo infinita.

Margem

terça-feira, março 08, 2005

Do Homem e da Mulher....

Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". De então para cá o movimento a favor da emancipação da mulher tem tomado forma, tanto em Portugal como no resto do mundo…

Que Todos os dias sejam o dia da mulher e do homem
Que homem e mulher sejam valorizados
Que as suas diferenças e integridade sejam respeitadas.
Que o homem e a mulher entendam que essas mesmas diferenças são complementares..
E que se unam na construção de um mundo mais humano e feliz!



O homem é a mais elevada das criaturas,
a mulher é o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono,
para a mulher, um altar.
O trono exalta,
o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher, o coração.
O cérebro fabrica a luz,
o coração produz o Amor.
A luz fecunda, o Amor ressuscita.
O homem é forte pela razão,
a mulher é invencível pelas lágrimas.
A razão convence,
as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos;
a mulher, é capaz de todos os martírios.
O heroísmo enobrece,
o martírio sublimiza.
O homem tem a supremacia,
a mulher, a preferência.
A supremacia significa a força,
a preferência representa o direito.
O homem é um gênio,
a mulher, um anjo.
O gênio é imensurável,
o anjo é indefinível.
A aspiração do homem é a suprema glória.
A aspiração da mulher é a virtude extrema.
A glória tudo engrandesce,
a virtude tudo diviniza.
O homem é um código,
a mulher, um evangelho.
O código corrige,
o evangelho aperfeiçoa.
O homem pensa,
a mulher sonha.
Pensar é ter no crânio uma larva,
sonhar é ter na fonte uma auréola.
O homem é um oceano,
a mulher é um lago.
O oceano tem a pérola que adorna,
o lago, a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa,
a mulher, o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço.
Cantar é conquistar a alma.
O homem é um templo,
a mulher é o sacrário.
Ante o templo nos descobrimos,
ante o sacrário nos ajoelhamos.
Enfim, o homem está colocado onde termina a terra.
A mulher, onde começa o céu.

Victor Hugo


segunda-feira, março 07, 2005

Pai...



As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
Sobre um fundo de manchas já da cor da terra
Como são belas as tuas mãos
Pelo quanto lidaram, acariciaram
Ou fremiram da nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
Essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
Nos braços da tua cadeira predileta,
Uma luz parece vir de dentro delas...
Vira dessa chama que pouco a pouco, longamente,
Viste alimentando na terrível solidão do mundo.
Como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los
Conta o vento.
Ah, como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas...
Essa chama de vida – que transcende a própria vida...

e que os anjos, um dia, chamarão de alma...

Mário Quintana


Tentei escrever para e de ti, não encontrei palavras, sabem todas a pouco..
Digo-te apenas que é um previlégio ter-te como Pai. E que te amo, que te amo muito.
Desejo-te um dia muito feliz, assim como todos os muitos que lhe seguem.


Foto de Dan Burkholder

domingo, março 06, 2005

Um dia...


Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela. e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela, sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade.

José Luis Peixoto


Foto de Mitsuo Suzuki

sábado, março 05, 2005

Da partida....



Leva-me nos teus sonhos mais audazes
Liberta-me desta vida tão terrena
Destas gentes que de alma tão pequena
Tornam os mais aptos incapazes.
Ajeito-me à tua envergadura
E voo para bem longe destas terras
P’ra esquecer estes vales e estas serras
E encontrar o reino da fartura.
Ao partir farei das fraquezas forças
E aos que ficam deixarei alento
Para que me aguardem no momento
Do reencontro…


Foto de Libor Spacek

sexta-feira, março 04, 2005

refugio ...

E me disseste: vem. E havia
alguns despojos sobre a areia, algumas
ressentidas grinaldas
no limiar das têmporas. Havia
alguns gestos suspensos, um cofre
de esmeraldas vermelhas, um torpor
nos membros retardados. E havia
um colar para as mãos, uma colina
para os lábios e uma flor
intacta perfumando
o silêncio, à beira
de indizíveis planícies.

Albano Martins




No badalar suave, das horas mortas, dos sinos das nossas almas,
Reverbera o meu amor por ti .
Ressonância infinita que faz perigar a integridade do senso
Que ainda me impede de enlouquecer no prazer que desejo.
Do esmaecer dos sons que se dissipam vai um beijo
Que lanço na esperança que te alcance
E te leve notícias de mim.
De mim para ti voa o sentimento como uma pequena ave
Que porá no teu peito, qual ninho, o ovo da minha paixão.
Bem fundo no meu ser está guardada a certeza doce
Da perenidade do refúgio eterno que és
Independentemente da tua ausência.


Foto de Mia Friedrich

quinta-feira, março 03, 2005

Amo...

Quando estou só e da tua presença apenas tenho a memória
vívida do teu Ser
Envolvo-me nela, como se de uma manta se tratasse, até que voltes, Cobrindo-me contra o frio da tua ausência, pensando:
Que amo eu em ti?
Teus olhos lindos mesmo quando chispam?
Tua boca fresca mesmo quando vocifera?
Teu cabelo negro mesmo revolto?
Tua doçura, tua inteligência, tua bondade?
Tua amargura, tua teimosia, tua crueldade?
O teu riso e o teu choro?
O teu coração imenso e a tua alva alma?
Não sei qual deles amo mais. É o todo que me encanta,
E exprimi-lo nunca conseguirei completamente,
Nem com todas as palavras e afagos desta vida

Margens



Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança de um peito
que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

António Ramos Rosa


Foto de Michel Thédenat

terça-feira, março 01, 2005

Da espera...

Dói tanto esperar por ti não sabendo onde estás.
Os segundos atingem dimensão de séculos.
Na tua ausência, existe uma forma negra que contrasta com o cenário circundante,
Para onde quer que eu me volte.
O seu contorno é o contorno da tua admirável figura.
É aí que me nasce a solidão.
No vazio espacial deixado por ti
Que só desaparece quando vens...

Margem



De esperas construímos o amor intenso e súbito

que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.
Em estranhos desencontros nos amamos.
Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.
Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,
a tarde projectava as suas grandes sombras
enquanto as gaivotas disputavam sobre a água
talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.
As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias
E por muito tempo permaneciam assim, unidas,
Machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.
Depois olhávamo-nos nos olhos
No mais profundo silêncio. E, sem palavras,
Partíamos com as mãos docemente amarradas e os corações estoirando uma alegria breve
Quando a noite descia apaixonada
Como o longo beijo da nossas despedida

Joaquim Pessoa


Foto de John Sigler